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Registrando FATOS na história
Carlos das Astúrias, por Alonso Sánchez Coello, c. 1564.

Carlos das Astúrias teve um posição privilegiada socialmente falando. Ele foi o único filho de Felipe II da Espanha, o monarca mais poderoso de sua época, com sua primeira esposa. Mas ao longo de seus 23 anos de vida protagonizou diversas polêmicas e teve um fim miserável.

Nascimento e educação

Carlos das Astúrias nasceu em 8 de julho de 1545 em Valladolid. Ele foi filho de Felipe II da Espanha com D. Maria Manuela de Portugal, que morreu de febre puerperal quatro dias após o parto. Durante a infância de Carlos seu pai viajou constantemente por motivos políticos.

Sendo assim, Carlos foi criado por suas duas tias paternas, as infantas Maria e Joana.

Carlos crescendo sendo mimado a todo momento e isso se refletiu em seu comportamento exagerado e sem limites. Além disso, ele tinha uma saudade frágil, possuindo uma curvatura anormal da coluna chamada de escoliose e tinha dificuldades para se expressar, sendo provavelmente gago.

Apesar da distância física de seu filho Felipe não se descuidou de sua educação e em 1554, quando voltou a Espanha, lhe proporcionou tutores ilustrados e capazes. Os mais notáveis ​​foram D. García de Toledo e Honorato Juan, Bispo de Osma e discípulo de Juan Luis Vives.

No entanto, Carlos seria um aluno desinteressado e as cartas enviadas por seus tutores a Felipe II deixam claro “o baixo aproveitamento” do príncipe.

Adolescência e juramento como herdeiro

Quando Carlos entrou na fase da adolescência ele começou a dar sinais de uma agressividade mais do que preocupante. Além disso, sua arrogância aumentou consideravelmente e sua desconsideração pelas pessoas que o cercavam era visível.

Em 22 de fevereiro de 1560, Carlos foi solenemente jurado herdeiro e sucessor do Reino de Castela nas Cortes de Toledo. Nessa ocasião ele jurou defender as leis e privilégios de Castela, manter a paz e a justiça no reino e preservar a religião católica.

Logo depois teve lugar o ritual de beija-mão do qual participaram os nobres e sacerdotes mais importantes de então. Todavia, Fernando Álvarez de Toledo y Pimentel, o duque de Alba não beijou sua mão a tempo por estar ocupado organizando a cerimonia.

Alba logo remediou seu esquecimento, mas Carlos considerou aquilo uma afronta e foi rude com o duque. Quando Felipe se inteirou da situação obrigou o filho a se desculpar.

Todavia, isso não mudou a situação e a partir de então Alba tornou-se uma espécie de inimigo para Carlos.

Em 1561 o príncipe se instalou em Alcalá de Henares por recomendação médica, pois os médicos da corte acreditavam que os ares frescos da cidade ajudariam a melhorar sua saúde.

Junto do meio-irmão do rei, João da Áustria, e de seu primo Alexandre Farnésio o príncipe também estudaria na universidade da cidade.

“Noiva roubada”

Apenas um ano antes, em 2 de fevereiro de 1560, Carlos, havia sido padrinho do casamento de seu pai com a princesa francesa Isabel de Valois. Carlos não viu a união com bons olhos, pois a mão de Isabel havia sido prometida a ele anteriormente.

Todavia, por estar ciente do caráter duvidoso do filho Felipe decidiu ele mesmo se casar com Isabel, após ficar viúvo de sua segunda segunda esposa.

Além disso, o casamento também foi feito para fortalecer a Paz de Cateau-Cambrésis, que colocava um fim nos conflitos entre Espanha e França por possessões na Itália.

Se conta, que na ocasião Carlos se sentiu traído pelo pai e colocado em segundo lugar novamente. Não sabemos até que ponto isso é verdade, mas é certo que a partir de então o relacionamento entre os dois se deteriorou ainda mais.

Entre a vida e a morte

Em 19 de abril de 1562 Carlos sofreu o acidente mais grave de sua vida. Ele caiu de uma escada enquanto perseguia uma criada, o que lhe causou graves ferimento na cabeça. Com dores terríveis e delirando de febre ele recebeu todos os tipos de cuidados médicos.

Numa tentativa desesperada de salvar a vida de seu único herdeiro Felipe ordenou que a múmia de Diego de Alcalá fosse levada até a cama de Carlos. Todavia, sua vida seria salva por uma trepanação realizada pelo anatomista Andreas Vesalius.

Após esse procedimento Carlos se recuperou, mas os danos seriam irreversíveis.

Geoffrey Parker em seu livro ‘Felipe II: La biografía definitiva’ afirma que o príncipe “mostrava a malícia desinibida de um rapaz com lesão cerebral frontal”. O historiador fez essa afirmação com base nas conclusões de um estudo conduzido pelo neurocirurgião pediátrico Donald Simpson, que se dedicou a explorar a trepanação feita em Carlos.

Violência com as mulheres

O trato violento de Carlos não ficou somente restrito aos nobres que o cercavam, mas também se estendeu as mulheres.

Se em 1562 o príncipe perseguiu uma criada com o intuito de manter relações sexuais com ela. Durante a infância ele havia ordenado que outra criada fosse chicoteada em sua presença apenas para “se divertir” com a cena.

No episódio Felipe tomou a iniciativa de pagar uma indenização a família da menina pelos danos sofridos.

Como se isso não bastasse também corriam rumores que afirmavam que Carlos saia a noite acompanhado de um reduzido séquito para frequentar os bordéis de Madri e que tratava as trabalhadoras de maneira violenta.

Membro do conselho e morte

Em 1564, Felipe II decidiu dar uma última chance ao filho, já que Carlos pedia constantemente uma oportunidade de participar mais ativamente da política. Ele foi nomeado membro do Conselho de Aragão e Conselho de Castela, mas mesmo assim ficou insatisfeito.

Apenas um ano depois, em 1565, Carlos entrou em contato com os líderes dos Países Baixos, nesse momento em rebelião contra a Espanha. Teve início assim um trama que visava proclamar Carlos soberano da região.

Embora, muitos historiadores e até mesmo os contemporâneos do príncipe duvidassem da lealdade dos rebeldes a Carlos e acreditassem que o jovem estava sendo usado pelos mesmos, o próprio príncipe achava que seria nomeado soberano dos Países Baixos e estava disposto a se ir pessoalmente até a região.

Para isso pediu a ajuda de seu tio, João da Áustria, que após ouvir a proposta do sobrinho foi imediatamente informar Felipe II do ato de traição. No entanto, João não sairia ileso da situação.

Após ficar ciente da reunião entre seu tio e pai Carlos decidiu atacar João com uma pistola, mas a arma havia sido descarregada por um criado que conhecia o carácter violento do príncipe.

A tentativa de se transportar até os Países Baixos foi vista como um ato de alta traição e em 17 de janeiro de 1568, Felipe II, de armadura e acompanhado de quatro conselheiros entrou nos aposentos do filho no Real Alcázar de Madrid e ordenou sua reclusão.

Logo depois Carlos foi transferido para uma torre do Real Alcázar, onde acabou falecendo em 4 de julho de 1568, aos 23 anos.

Não se sabe a causa exata de sua morte. Muitos historiadores argumentam que ele foi vítima de uma greve de fome que teria dado início como uma forma de protesto por sua prisão, enquanto outros apontam indícios que ele teria desistido da mesma e voltado a ingerir alimentos.

Outros historiadores especulam que Carlos teria morrido como consequência de sua saúde frágil e das consequenciais da malária que havia contraído durante a infância.

De qualquer maneira, é extremamente improvável que Felipe II tenha ordenado seu assassinato por envenamento. História que foi difundida por seus inimigos políticos.

Mas é quase certo que os problemas mentais e físicos de Carlos tenham sido resultados da consanguinidade de seus pais, que foi fruto da endogamia praticada em larga escala pela Dinastia de Habsburgo.

Atualmente os restos mortais de Carlos das Austúrias descansam no Panteão dos Infantes do Monastério do Escorial.