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Registrando FATOS na história

Há uma antiga lenda tibetana [Pelliot, 1961; Dotson, 2009] que diz que em tempos recuados e imemoriais, um macaco teve com uma ogra seis pequenos filhos. E todos esses foram depois levados para uma floresta para viverem dos frutos. Passados alguns anos, os genitores retornaram para o local e, para a surpresa deles, viram que dos seis originais somaram-se mais de quinhentos descendentes, e que a floresta estava exaurida. Desesperados, as centenas de criaturas passaram a reclamar por mais comida. Angustiado, o patriarca visando atender os insistentes pedidos rezou pela compaixão de uma divindade budista, Avalokiteshvara (ou em tibetano, Chenrezig, literalmente “soberano que olha para baixo” ou “aquele que considera e preza pelos clamores do mundo”, entidade budista, um ser iluminado – bodisatva ou bodhisattva, que representa a suprema compaixão por todos aqueles no plano mundano), que espalhou grãos pela imensidão da terra, que frutificou em colheitas a serem diligentemente cuidadas, ano após ano [Macedo, 2017b, pp. 1, 2].

Nesse sentido, a lenda mostra como a colheita de grãos se tornou a base da alimentação dos tibetanos. E dessa condição, com o longo passar das gerações, os descendentes desse atrevido grupo passaram a perder os pêlos, os rabos encurtaram, e passaram a aprender a falar. E dessa lenda ensina-se que há dentro de todos um lado mais impetuoso, competitivo e poderoso que remete à matriarca ogra, e outro lado mais curioso, tolerante, empático, trabalhador e suave do patriarca macaco. Essas dualidades sempre ficam à espreita, em cada um dos seus descendentes.

Foi um trunfo da curiosidade e aprendizado que um dos seus maiores regentes, Songtsen Gampo (569 – 649? ou 605 – 649?) (fig. 1), 33º. rei dos tibetanos, quando foi a ele atribuído a criação do alfabeto e língua tibetana. E não somente isso, pois foi com Songtsen que os tibetanos começaram a expandir seus domínios além do altiplano. Chegaram mesmo, no inverno de 763, a ocupar a capital chinesa da dinastia Tang (618 – 907), Changan (atual Xian). Cidade próspera, rica e cosmopolita pela sua crucial posição no caminho da rota comercial que levava à Ásia Central e mais ao oeste e sul asiático [Macedo, 2016, p. 7]. A Rota da Seda .

Figura 1: Songtsen Gampo.
Fonte: https://tinyurl.com/y8kejj3k

O exército tibetano, quando na capital Tang, fora objeto de profunda admiração e estupefação dos seus habitantes, pois muitos nunca os tinham visto. Ademais, havia certa atitude de superioridade de seus mercadores, artistas, cortesãos e funcionários imperiais que, por tradição, olhavam com desdém todos aqueles povos além dos alcances do império chinês.

Mas a conquista de Changan não foi simplesmente um simples episódio de invasão e saque de bárbaros. Pois os tibetanos não tinham esse objetivo, nem mesmo pretendiam governar a cidade imperial. Assim o fizeram ao convencer um príncipe rebelde chinês aliado aos interesses de Songtsen, e partiram mais adiante para consolidar sua hegemonia nas regiões mais a oeste e sul de Changan. A partir de então, o trono chinês fora ocupado por novos governantes aliados aos tibetanos. Para a humilhação do exército imperial chinês e do imperador deposto, Daizong (r. 762 – 779), que decidiu permanecer afastado mais ao leste na cidade de Luoyang. Toda a região ao leste do Tibete, atual região de Yunnan, caiu sob controle direto de Songtsen até 794.Restou ao império chinês negociar tratados de limites com os tibetanos, e nisso perderam boa parte do controle das regiões ocidentais, essenciais para as prósperas rotas comerciais asiáticas.

Resta então saber de onde vieram esses tibetanos, essa força magnífica que ocupou a capital chinesa e cortou-lhe os acessos ocidentais? Parte das respostas remete a séculos anteriores, quando um líder dos tibetanos, chamado de Filho Divino destacou-se entre os clãs de nômades em disputa no impiedoso altiplano tibetano. E entre esses, com o passar do tempo, destacou-se um soberano que levou a extensão tibetana muito além de suas origens, Songtsen Gampo.

Quando ainda príncipe, Songtsen cresceu num ambiente cercado de augúrios favoráveis ao seu destino. Destacou-se na infância pela sua curiosidade insaciável e desejo de aprender. Seu pai, Namri (570? – 618/629?), fora um grande rei, um tsenpo, uma encarnação do divino na terra. Tal título decorreu depois que Namri consolidou amplas alianças entre os chefes dos clãs tibetanas, estabelecendo-se como o destacado líder de todos.

O título tsenpo carrega grandes significados. Não apenas aponta a singularidade de um soberano entre vários líderes de clã, mas também denota um sentido divino, como um Filho Divino, representante da ordem cósmica, uma figura divina entre os homens. A conexão do tsenpo com os céus era representada por uma espécie de “cordão do céu” feito de luz que ligava a cabeça do soberano aos céus acima. Essa tradição, aparentemente, remete ao primeiro dos tsenpos, a Nyatri, que regeu no segundo século a. C. e que desceu dos céus para uma montanha sagrada, Yarlha Shampo, no vale de Yarlung . Para celebrar esse primeiro regente, a mitologia tibetana conta-nos de que o magnífico palácio e forte de Yungbulakang fora erguido.

Não cabia ao tsenpo a indignidade da morte. Ao invés disso, no tempo certo, voltavam aos céus através de seu cordão celeste. Mas, aparentemente, um dos antecedentes de Songtsen, Drigum, fora falho em tempos mais recentes e, assim, enfraqueceu a condição divina e imortal dos tsenpos e a ligação com os céus. Pois Drigum, de acordo com as antigas crônicas, era afeito a confusões e duelos, saindo sempre favorecido pela sua espada divina forjada nos céus. Eventualmente, Drigum defrontou-se com alguém à sua altura. Um cortesão astucioso desafiou o soberano sem o uso de sua arma mágica, e tirou proveito das cinzas levantadas por centenas de bois no local do confronto. Ao final, Drigum fora morto e a conexão do cordão celeste fora perdida.

Songtsen cresceu sabendo, pois, dos tempos imortais e divinos idos dos seus ancestrais. O que não tirou a coragem no campo de batalha de seu pai que conferiu-lhe grande estima e temor entre os líderes dos clãs. Assim, os domínios do tsenpo foram estendidos muito além da região do vale de Yarlung, no sul do Tibete [Shakabpa, 2009, p. 109]. Esses clãs tibetanos consistiam em boa parte de nômades que tinham migrado da Ásia Central para os férteis vales meridionais do Tibete, antes habitados por indefesas comunidades de fazendeiros.

O fim do reinado do pai de Songtsen, Namri, fora trágico, sendo envenenado numa tentativa de usurparem-lhe o poder. Mas Songtsen moveu-se antecipadamente e conseguiu desarticular todos os envolvidos no golpe. A morte de Namri, em essência, mostrou os limites da obediência à figura do tsenpo, nem sempre feita por todos os líderes e por conta de interesses e alianças feitas, e conspirações quando oportunas. Restou aos rebeldes a fuga ou o embate em fortalezas construídas como a imponente Yunku Lhakang. O príncipe Songtsen, ao final, herdou todas as conquistas e alianças feitas pelo seu pai, na maior extensão imperial que o Tibete já teve. Aos treze anos apenas, e os rebeldes contidos, restou ao Songtsen buscar seus aliados e perseguir os insurgentes. Quando pacificou seu reino, o jovem tsenpo partiu depois para o oeste para assegurar as problemáticas fronteiras. Estava evidente que o Filho Divino tinha voltado ao comando tibetano.

Figurava como capital e centro do reino de Songtsen a cidade de Rasa, que traduzindo significa “cidade murada”, algo adequado para um local que tinha fundamentos de defesa. A cidade estava às margens do rio Kyichu e ficava à espreita, empoleirada, na cordilheira de Nyenchen Tranglha ao norte, que separava a região das amplas planícies do norte. Com o tempo, Rasa ganhou maior importância e significado com o aumento do poder do tsenpo, e passou a ser referida com um nome mais digno, Lhasa (ou Lassa), “Cidade Divina”. E nessa foram se assentando as estruturas administrativas, militares e jurídicas do reino, deixando para trás o aspecto nômade dos antepassados da elite tibetana.

Lhasa se situa em uma das regiões mais extraordinárias da Ásia. É envolvida pelas montanhas mais altas do mundo. Ao oeste, há algumas poucas passagens para o transporte e comércio para o Afeganistão e Ladakh. Ao norte, o deserto de Kunlun Shan consta como um dos mais hostis do mundo. E para o sul e leste, situam-se os imponentes Himalaias (mapa 1). Nessa cordilheira, mais ao sul de Lhasa, o rei do Nepal governava o próspero vale de Katmandu, beneficiando-se da prosperidade de comerciantes e missionários que transitavam do norte indiano das planícies dos rios Yamuna e Ganges (local onde o Buda, príncipe Sidarta, viveu) para o norte e no sentido contrário. Ao oeste, havia outro antigo reino mencionado nos textos tibetanos, Zhangzhung (ou Shangshung), cujo povo guardava algumas origens em comum com os tibetanos. Tinham desenvolvido sua língua própria e mantinham ligações com os persas ainda mais ao oeste. Em direção à China, havia uma espécie de confederação de comunidades e clãs que eram conhecidos como Azha (ou Tuyuhun), que periodicamente organizavam e fustigavam os chineses [Schaffer; Kapstein & Tuttle, 2013, p. 4].

Mapa 1: O Tibete e arredores. Ladakh ao oeste, Kunlun Shan ao norte/noroeste e os Himalaias, Nepal, Butão e Índia ao sul.
Fonte: https://goo.gl/images/TU5Wjd

E fora com esses reinos vizinhos ao Tibete que Songtsen projetou sua ambição imperial. Havia também algo muito além desses poderios, pois a Índia, mais ao sul além do reino do Nepal, era em suas regiões setentrionais entre os rios Yamuna e Ganges, governada por Harsha (r. c. 606 – c. 647) [Macedo, 2017a, pp. pp. 109-110]. Os persas além dos domínios de Zhangzhung, e os chineses atrás de Azha, que estavam se consolidando após as turbulências sob uma nova fase dinástica.

Não demorou muito para Songtsen dar rédeas às suas ambições sobre as vizinhanças. Sobre Zhangzhung, ele primeiramente sinalizou de que pretendia continuar com as alianças feitas pelo seu pai, e mandou uma de suas filhas, princesas, a casar-se com o rei de Zhangzhung, Ligmikya. Parece que o matrimônio não foi duradouro, e a princesa enviada começou a servir de espiã. No momento oportuno, em cima dos relatos de sua filha, Songtsen enviou um destacamento militar para emboscar o rei vizinho enquanto ele esteve afastado de seu castelo na capital em Kyunglung. Assim, o rei foi morto e Zhangzhung foi absorvido por Songtsen [Beckwith, 1987, p. 20].

Além da conquista, Songtsen também articulou com novos aliados estrangeiros. Uma nova oportunidade apareceu com o reino do Nepal quando o rei Narendradeva (643 – 679) foi destronado e pediu exílio em Lhasa, permanecendo lá durante a década de 630. A corte e elite tibetana aprenderam muito com os nepaleses refugiados. O budismo entrou com vigor, e o templo mais antigo do Tibete, o de Jokhang (fig. 2), fora erguido com base nos templos do Nepal, realizado e esculpidos por artesãos nepaleses. No retorno à sua terra natal, por volta do ano de 670, o soberano nepalês foi à frente de um numeroso e disciplinado exército tibetano, tornando-o efetivamente, ao recuperar o trono, um vassalo do império tibetano.

Figura 2: Templo de Jokhang, Lhasa. Fonte: https://tinyurl.com/ybysfsz2

Ao leste do Tibete, a China da dinastia Tang, recentemente restabelecida, estava ocupada em apaziguar suas fronteiras ocidentais, com destaque para a problemática Azha na década de 630. Fora nesse contexto que Songtsen enviou um embaixador aos chineses em 634, para tentar negociar alianças. Com pouco efeito. Quatro anos depois, de maneira mais ousada, Songtsen mandou outra legação, a pedir a mão em casamento de uma princesa chinesa. E apontou como embaixador dessa missão um descendente do antigo clã de Gar, Gar Tongtsen Yulsung (590 – 667) (fig. 3). E este, quando em Changan, fez seus pleitos de matrimônio assim tinha feito um príncipe de Azha. Depois de algumas delongas, Gar voltou com a negativa da corte chinesa, que favoreceu ao partido de Azha. O retorno a Lhasa com as notícias foi considerado como uma afronta ao senso de Songtsen. E o tsenpo decidiu então enviar contingentes bélicos, agora com o apoio de Zhangzhung, em direção à Azha.

Figura 3: Gar Tongtsen Yulsung. Fonte: https://tinyurl.com/y858ks2x

A vitória apareceu rapidamente, e toda a região ao nordeste do Tibete, Amdo, foi incorporado pelo império (mapa 2). Com as tropas estacionadas na fronteira com a China, o poder de barganha de Songtsen aumentou consideravelmente, e o tsenpo passou a exigir mais do trono chinês. Ao final das ameaças, o imperador Daizong resolveu dar uma lição definitiva aos tibetanos considerados como bárbaros insolentes. E o resultado, para a surpresa de todos em Changan e da corte chinesa, fora favorável aos desígnios do nascente poderio tibetano, pois as tropas chinesas foram fragorosamente derrotadas em campo.

Mapa 2: O Tibete com destaque para a região de Amdo ao norte e Kham ao leste. Os chineses depois renomearam Amdo como Qinhai, e as províncias da China de Sichuan e Gansu ficam na fronteira ao leste e Yunnan ao sudeste. Fonte: https://tinyurl.com/ya4vg8zg

Coube, pois, à Daizong assumir uma postura de negociação se visasse garantir alguma ordem em suas fronteiras. Mesmo porque, o próprio imperador chinês não era avesso aos povos limítrofes da China. Ele mesmo era filho de uma mulher de origens turcas ao oeste, e um de seus filhos, empolgou-se com a moda turcófila da época da corte chinesa [Golden, 2011, p. 41] , passando a residir em tendas e a consumir carnes de carneiro. Teimosamente, a corte tibetana mandou seu mais talentoso embaixador novamente para Chagan. Quando este chegou para nova audiência com o imperador Filho do Céu, respeitou todo o elaborado protocolo e cerimônia dos Tangs. Recitando respeitosamente as linhas de oferta de tributo ao imperador, impressionou vivamente a corte chinesa presente. E assim pôde prosseguir com seu pleito primordial de solicitar a mão de outra princesa chinesa, Wencheng (628 – 680/2), para Songtsen com todas as implicações políticas disso. Ou seja, sendo assim, o Império do Meio reconheceria de fato um poderio estabelecido e aliado por casamento em suas fronteiras meridionais.

Após a bem sucedida embaixada na capital chinesa, Gar e seu entourage escoltaram a princesa de volta ao Tibete. E o casamento com o tsenpo inaugurou décadas de paz entre os tibetanos e chineses, e seguiu-se um período de intenso intercâmbio cultural. Em que muitos jovens tibetanos viajaram para Chagan para estudar nas escolas e academias da capital chinesa, assim como houve a chegada de artesãos chineses no Tibete, ocasião em que demonstraram novas técnicas e tecnologias, como a caligrafia, o fabrico e uso do papel, da tinta e da seda. A chegada da princesa chinesa também foi crucial para a corte tibetana, apresentando o uso de vestimentas de seda ao invés do uso de peles e feltro, assim como o abandono da pintura do rosto em pigmentos vermelhos, prática considerada como bárbaro demais aos olhos chineses.

Segundo os historiadores tibetanos, a maior contribuição que a princesa trouxe foi o budismo. A regente trouxe para Lhasa uma estátua de Buda, o primeiro a chegar ao reino e foi colocado num templo especial a ele dedicado, o de Ramoche. Posteriormente, a estátua foi movida para outro templo, o de Jokhang, onde permanece até os dias atuais. Esse evento, portanto, do casamento da princesa chinesa com Songtsen e a introdução do budismo em Lhasa marcaram um momento de transformação histórica no Tibete. Pelo significado histórico desse momento, há diversas pinturas e esculturas do tsenpo, Songtsen, ladeado por uma princesa nepalesa de incerta existência histórica, Bhrikuti Devi, e da princesa chinesa Wencheng (fig. 4). O significado não poderia ser mais claro: o Tibete surgia confidente e relacionado com o reino nepalês ao sul e os chineses ao norte no século 7º.

Figura 4: Songsten Gampo com as princesas Wencheng (esq.) e Bhrikuti (dir.).
Fonte: https://tinyurl.com/y7d4spsu

Em meados do referido século, em meio a tantas mudanças no Tibete, ocorreu outro notável evento. A introdução da escrita chinesa e, com isso, a criação de uma escrita tibetana. As suas origens estão repletas de lendas, de acordo com as antigas crônicas tibetanas, e muitos desses apontam para a figura de Gar, o talentoso embaixador, que trouxe as novidades de Changan e estimulando assim os mais curiosos da corte em Lhasa, incluindo Songtsen. Perturbados com a novidade, a corte tibetana decidiu então formular uma língua própria, e assim tinham mandado alguns emissários para a Índia. Nessa empreitada, acharam um jovem tibetano de inteligência e curiosidade extraordinárias, Thonmi Sambhota (fig. 5), para ir para as terras indianas para buscar elementos para uma nova escrita do reino [Kapstein, 2003, p. 753]. Após alguns anos, depois de ter aprendido com um brâmane local, Thonmi voltou ao Tibete com o louvor de ter se letrado em mais de uma dezena de línguas. E foi ele que deu início, com seu amplo conhecimento a combinar diversos elementos das línguas aprendidas, que o alfabeto tibetano foi formulado e ensinado para Songtsen e membros da família real. E a lenda continua narrando o grande afinco e entusiasmo que Songtsen aplicou nos seus estudos, fechando-se em reclusão por anos a fio. Pela sua atitude e curiosidade em aprender, Songtsen depois ganhou o nome de Gampo, “Sábio”.

Figura 5: A invenção da escrita tibetana, pelas mãos de Thonmi Sambhota. Fonte: https://tinyurl.com/y8bsr9c8

Saindo das brumas das lendas, o fato é que já em meados do século 7º. o Tibete já demonstrava ter consolidado, com um boa dose de orgulho, uma escrita e língua própria, à altura das realizações de seus reinos vizinhos. E foi sobre essa língua que os escritores e estudiosos budistas compilaram e cuidadosamente zelaram as lendas, crônicas, ensinamentos e história do Tibete. E com a consolidação de uma escrita, foi depois possível fazer uma ampla reforma administrativa e burocrática do império. Assim, as terras e domínios foram divididos em cinco grandes “chifres” (ru), cada qual com dez mil distritos, e cada uma dessas composta por mil famílias. E foram sobre essas unidades menores que a fonte de receitas para impostos e alistamento militar forçado seria baseada.

Entre os postos de alto escalão no império, foi organizada uma rígida hierarquia, visando controlar e apaziguar as ambições de nobres e chefes de clã. O primeiro-ministro seria nomeado pelo tsenpo, e ele ocuparia o cargo administrativo máximo, com a ajuda de quatro ministros-chefe e outros ministros menores. Cada ministro seria designado com insígnias reais, turquesa para o mais importante, seguido de ouro, ouro branco, prata, latão e cobre. Esses oficiais nomeados pelo tsenpo seriam retirados de seus clãs, para não organizarem rebeliões contra o império. No fundo da hierarquia havia a imensa maioria dos tibetanos, camponeses e nômades cujas vidas permaneceram em grande parte inalteradas até meados do século 20. Os camponeses deveriam permanecer nas propriedades dos grandes proprietários até a morte, com raras concessões de viagem sendo concedidas apenas para peregrinações. Os nômades (drogpas) poderiam ser mais livres, conduzindo seus rebanhos de ovelhas, cabras e iaques em busca de pastagens. A sociedade tibetana fora, portanto, estratificada nessas linhas. Songtsen, no ápice dessa pirâmide foi depois considerado como governante modelo, a que todos os subsequentes soberanos aspiravam.

À época da sucessão ao seu trono, Songtsen obedeceu à tradição dos velhos rituais que indicavam que o espírito do tsenpo começava a passar para o corpo do filho dele, Gungsong Gungtsen (605 ou 617 – 649), a partir dos 13 anos de idade. Mas o príncipe herdeiro morreu pouco cinco anos depois, assumindo Songtsen de novo o trono. Além dessas tribulações, havia mudanças políticas importantes para ocupar sua mente. Eventos nas regiões ao redor do Tibete começaram a desestruturar tudo o que ele e seu pai arduamente construíram. A China começou a cultivar relações mais próximas com a Índia na década de 640, sob a liderança de Harsha, outro ambicioso construtor de impérios. Em 648, uma importante embaixada chinesa chegou à Índia e descobriram que Harsha havia morrido. Um dos novos líderes indianos resolveu atacar os enviados, matando todos exceto dois que escaparam para o Tibete. Um desses era o diplomata Wang Xuance, político experiente que tinha cultivado bons contatos com Songtsen. O tsenpo então resolveu atender aos seus pedidos e concedeu-lhe um destacamento de soldados tibetanos e cavalaria de combate nepalês para acompanhá-lo de volta à Índia. Depois de alguns dias, as tropas indianas foram rendidas e o líder militar deles foi enviado para a China como prisioneiro de guerra. Nesse sentido, parte da região norte da Índia entrou na esfera de controle dos tibetanos, para a glória dos últimos momentos do reinado de Songtsen. Que chegou a falecer em 649, mesmo ano do fato ocorrido ao imperador chinês, Daizong. O império tibetano estava consolidado e respeitado, mas Songtsen não tinha deixado um claro herdeiro ao seu trono.

O único candidato imperial ao trono seria o pequeno neto de Songtsen, mas ele precisaria de um tutor regente até completar uma idade adequada ao poder imperial. E assim o poder passou para as mãos do primeiro-ministro, o ex-embaixador enviado aos chineses, Gar Tongtsen Yulsun. O qual atendeu a todos os rituais fúnebres esperados de um tsenpo falecido. O corpo de Songtsen fora levado numa grande procissão ao seu tumulo, uma vasta estrutura de terra de 13 metros de altura e 130 de comprimento projetando-se do solo até os dias atuais visível, no vale de Yarlung, local onde seus ancestrais primeiro desceram dos céus ao plano terrestre. E junto com o soberano morto, acompanharam cavalos, servos e tesouros no seu túmulo, com a idéia de que seu repouso final na terra seja o mais confortável e seguro possível. Para selar o túmulo, uma pilha de pedras foi erguida, não apenas para marcar a tumba real, mas também a servir de marco para aqueles de passagem através dos tempos, que poderiam, por sinal de reverência e respeito, empilhar mais umas pedras no local designado.

À frente do poder como regente, Gar Tongtsen mostrou-se à altura de seu antecessor soberano e foi capaz de conduzir o império criado enquanto o sucessor imperial ainda estava em tenra idade. Sua ambição fora demonstrada já em 663, quando ele esmagou o reino de Azha diante de uma ampla revolta. Ademais, foi atrás de alguns povos seminômades da Mongólia que haviam fustigado os chineses e tibetanos nos últimos anos. Gar Tongtsen depois ampliou nessas áreas o uso e ensino do alfabeto e escrita tibetana, e realizou um amplo recenseamento dos territórios controlados, a aumentar os impostos e recrutamento civil e militar. O Tibete começava a se firmar como um grande império pan-asiático na segunda metade do século 7º.

Um dos maiores trunfos e orgulho do exército tibetano eram a resiliência e motivação disciplinar de seus soldados em campo. Mesmo em menor número, poderiam apresentar feitos superiores. Suas armaduras consistiam em couro em escalas, feitos de resistentes retângulos cobertos com laca vermelha ou preta brilhante decorada com círculos pintados. Os soldados usavam plumas em cima de seus capacetes e carregavam compridas bandeiras de reverência aos ensinamentos de Buda.

Os maiores êxitos desse exército se deram num dos locais mais hostis do planeta: no deserto de Taklamakan, ao norte tibetano. Essa região tinha especial significado estratégico, pois era por essa que passavam as lucrativas rotas comerciais que iam desde Changan ao extremo oeste da Ásia e mundo mediterrâneo. Os chineses durante muito tempo controlaram essa região, mas por volta de 660, os turcos estavam começando a se rebelar e almejar controlar a região. E nisso Gar Tongtsen viu a oportunidade de ampliar o império ainda mais. Planejou então, nesse intento, atravessar rapidamente as montanhas para a região atual da Caxemira, furtivamente aos olhos chineses, e aliado a alguns clãs turcos, conquistou a cidade de Kashgar, cortando de vez a ligação da China com a Rota da Seda.

Após esse feito, foram para cima da antiga cidade de Khotan (Hotan) (mapa 3). Essa última cidade era venerada por antigos cronistas como sendo de um ambiente próspero, vibrante, cosmopolita e tolerante. Local onde cedo floresceu o budismo até a conversão ao Islã no início do século 11. O fervor budista na cidade foi constatado na coleção de escrituras budistas, entre elas algumas profecias e iminentes situações de invasores, como os textos de Vimalaprabha, compiladas na década de 670. Nesses textos, narra-se sobre uma princesa budista de Khotan, determinada a salvar o budismo das depredações de guerreiros bárbaros, a quem ela se refere como “caras vermelhas”, costume o qual alguns guerreiros tibetanos faziam antes de ir ao campo de batalha.

Mapa 3: Ao norte do Tibete, situa-se a cidade de Khotan (Hotan) na Rota da Seda ao sul do deserto de Taklamakan, indo terminar ao oeste em Kashgar. Ao leste da rota, destaca-se a cidade de Dunhuang. Fonte: https://tinyurl.com/yamgu2my

Voltando ao momento histórico da época, Khotan acabou sendo invadida e dominada por tibetanos, e muitos dos novos invasores tornaram a vida mais complicada de budistas locais. Nenhum respeito fora apresentado diante de veneráveis estupas (monumento erguido sobre os restos mortais de alguma importante pessoa dentro do budismo) e monumentos budistas, por acreditarem que se tratava de um credo alienígena ou mesmo heresia diante do incipiente budismo que estava se alastrando a partir da elite tibetana.

Com essa conquista consolidada, os tibetanos passaram a controlar um imenso império asiático que se situava nas encostas da China da dinastia Tang. Gar Tongtsen, após essas campanhas, voltou-se exausto ao Tibete Central em 666 e teve uma série de importantes audiências com o jovem tsenpo, que começou a manifestar seu desinteresse de manter um império tão vasto e nos assuntos políticos e militares. Quando Gar Tongtsen morreu, no ano seguinte, o império foi dividido efetivamente entre os vários filhos de Gar, em várias regiões que trouxe o espectro de conflitos e divisões inevitáveis. Após alguns anos, foi o bisneto de Songtsen como tsenpo, Dusong, ou Tridu Songtsen (r. 676 – 704), que assumiu o comando de tentar acabar com as brigas entre os filhos de Gar Tongtsen, tirando vantagem de estar na corte enquanto eles estavam longe governando em territórios distantes.

Na década de 690, a sorte dos filhos de Gar começava a mudar. O governador Gar de Khotan, Gar Tsenyen, fora derrotado pelos chineses. O tsenpo, Dusong, capturou-o e julgou-o militarmente e foi executado. Em seguida, Gar Tagu, outro governador Gar, fora preso. E assim também ocorreu a Gar Tridring, depois de anos de campanhas com a inquietação exaustiva de seus soldados. Boa parte desses últimos advinha de povos não propriamente tibetanos, o que fez com que muitos mudassem de lado, transferindo suas lealdades para o inimigo, no caso, para o exército chinês. E foi assim que a Imperatriz Regente Wu, ou Wu Zetian (r. 690 – 705), da China, ofereceu um acordo de paz, não ao próprio comandante Gar Tridring, mas ao tsenpo. Dusong e a corte tibetana, ao aceitar tal proposta, iriam consolidar sua posição junto aos chineses e desarticular o chefe Gar Tridring. Em momento posterior, todos os membros proeminentes do clã Gar foram reunidos em uma festa de caça e, em dado momento, foram encurralados e executados. Antes que Gar Tridring ficar ciente do massacre, o tsenpo, com a anuência da China, partiu para cima de suas tropas exaustas e de lealdade duvidosa, derrotando-os finalmente em batalha [Beckwith, 1987, pp. 14-15, 48-65]. Dusong, assim, reafirmou-se novamente como o tsenpo, o verdadeiro governante divino do Tibete. Mas os problemas com os chineses foram retomados logo depois. A Imperatriz Wu começou a tentar expandir suas fronteiras na Ásia Central, isso no ano de 692.

Em suma, os tibetanos no final do século 7º. já tinham consolidado seu império, sua cultura, escrita e crença. Sua capital, Lhasa, era uma cidade vibrante e diversificada, alimentada por pessoas de várias regiões asiáticas, desde indianos, nepaleses, chineses e toda variedade de estrangeiros que estavam ali para estudar e comerciar. A prosperidade do controle da Rota da Seda trouxe uma prosperidade sem precedentes, assim como novas ideias e culturas. Seda, chá, jade, escravos e especiarias eram anunciados nos seus mercados.

REFERÊNCIAS

Emiliano Unzer Macedo é professor associado de História da Ásia do departamento de História da Ufes. Mail: prof_emil@hotmail.com

Página do projeto de História da Ásia no Instagram: https://www.instagram.com/historiadaasia/

Livros publicados na área do autor: https://www.amazon.com.br/s?k=Emiliano+Unzer+Macedo&i=stripbooks&ref=nb_sb_noss

BECKWITH, Christopher. The Tibetan Empire in Central Asia. Princeton, Nova Jersey, EUA: Princeton University Press, 1987.

DOTSON, Brandon. The Old Tibetan Annals: An Annotated Translation of Tibet’s First History. Vienna: Austrian Academy of Sciences Pres. 2009.

GOLDEN, Peter B. Central Asia in World History. Oxford: Oxford University Press, 2011.

KAPSTEIN, Matthew P. “The Indian Literary Tradition in Tibet” In: POLLOCK, Sheldon (Org.). Literary Cultures in History: Reconstructions from South Asia. Berkeley & Los Angeles: University of California Press, 2003.

MACEDO, Emiliano Unzer. História da Ásia: uma introdução à sua história moderna e contemporânea. Vitória: SEAD/ Ufes, 2016.

______. História da Índia: uma narrativa do Vale do Rio Indo a Chandrayaan-1. Columbia, Carolina do Sul, EUA: Amazon Independent Publishing, 2017a.

______. História do Tibete. Columbia & San Bernadino, EUA: Amazon Independent, 2017b.

PELLIOT, Paul. Histoire Ancienne du Tibet. Paris: Librairie d’Amérique et d’Orient. 1961. Disponível em: http://www.worldcat.org/title/histoire-ancienne-du-tibet/oclc/1732214.

SCHAFFER, Kurtis R.; KAPSTEIN, Matthew & TUTTLE, Gray. Sources of Tibetan Tradition. Nova York: Columbia University Press, 2013.

SHAKABPA, Tsepon W. D. One Thousand Moons: an advanced political history of Tibet. Leiden: Brill, 2009.

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