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Registrando FATOS na história

Muito embora a escrita da História tenha privilegiado algumas poucas cidades-estados quando se fala em Grécia Antiga, como Atenas e Esparta, o universo grego conheceu mais de um milhar de cidades (pólis), independentes umas das outras. Cada uma delas seguiam seus próprios ritmos, com seus calendários, regimes de governo, etc., o privilégio historiográfico por essas duas cidades permeia ainda nos dias atuais quando encontramos em manuais didáticos do Ensino Básico a permanência dessa concepção, fazendo com que os alunos estudem uma cidade ou outra, sem se dar conta da vastidão de pólis existentes na Grécia Antiga. Nesse artigo, pretendo descontruir essa ideia ainda permanente na mente de muitos estudantes e mostrar um pouco da vastidão da Grécia Antiga.

O começo do que é chamado nas universidades de todo mundo por Atenocentrismo (Atenas no centro) está na antiguidade. Francisco e Morales (2006) fala em três concepções da antiguidade que reforçavam essa ideia: a primeira coloca Atenas como berço da civilização, girando em torno de uma tradição mitológica que apresenta Atenas como a formação do mundo através do mito antigo da ancestralidade. Outra ideia que se tinha na antiguidade é a de que Atenas era como a muralha da civilização, sendo a protetora do mundo grego antigo, devido às suas conquistas militares. E, por último, temos a ideia de Atenas como escola da Grécia, neste caso, temos os exemplos clássicos das academias filosóficas.

Figura 1: Vastidão da Grécia Antiga vista pelo Nausitoo

Captura de tela do Nausitoo. Fonte: Site do Laboratório de Estudos sobre a Cidade Antiga. Disponível em <www.labeca.mae.usp.br/pt-br/city>, acesso em 08 de fev. 2021.

Através da figura 01, percebemos como a Grécia era muito vasta e suas pólis se espalhavam de uma ponta a outra do Mar Mediterrâneo em mais de mil cidades, nem todas presentes na representação. Essa vastidão dos gregos se deve ao fato de que eles eram povos exploradores e conseguiram povoar as terras de fora de seu lugar de origem – a Grécia balcânica – localizada na parte direita do mapa. O processo de expansão da Grécia ocorreu entre os séculos VIII e VI a.C.

Um ponto importante a ser levado em consideração é que os gregos se denominavam de Helenos e a terra onde habitavam de Hélas. “Grego” e “Grécia” são denominações que os romanos usaram para nomear aqueles que estavam estabelecidos naquele espaço antes deles, conforme explica o historiador Jonathan Hall (2001).

Juliana Dahora (2012) trabalha com duas cidades distantes geograficamente uma da outra, mas que pertenciam ao grupo de cidades gregas: Siracusa que ficava localizada na Sicília, é uma cidade que há muitas fontes escritas que podem ser estudadas, não dispensando, é claro, o uso da arqueologia para o estudo da mesma. Sabe-se que essa cidade fundou assentamentos ao seu redor e teve grande expressividade na Grécia Antiga, fontes confirmam que ela chegou a vencer Atenas em um combate durante a Guerra do Peloponeso.

Outra cidade trabalhada por Juliana Dahora é Argilos, localizada no norte do Egeo, sobre essa cidade há poucos registros escritos, mas sabe-se que era uma cidade imponente, a atuação da arqueologia é imprescindível para o seu melhor entendimento. Argilos ocupou uma área privilegiada, beneficiando as atividades comerciais de ouro e minas de prata, ao longo do rio Strymon, ela também fundou novos assentamentos ao seu redor. As duas cidades pertenciam a algo maior, que era a comunidade Helênica e se uniam através de uma identidade comum.

Os autores Morales e Francisco (2016) afirmam que com a formação dos estados nacionais no século XIX os estudiosos buscaram exemplos na Grécia Antiga. Dada a posição de Atenas, a cidade ganha ainda mais destaque, reforçando mais uma vez o Atenocentrismo. O historiador francês Jean Victor Duruy, ao publicar a sua obra História da Grécia em 1846, foi bastante censurado pelos seus pares pelo tom favorável à Atenas em detrimento de Esparta. No entanto, ele ganha o apoio de George Grote, e de outros historiadores que mostraram Atenas como centro do mundo helênico. A democracia ateniense oferecia uma referência mais positiva, e, em contraponto, Esparta, tida como um retrocesso à simbologia de democracia, passa a ser símbolo de atraso. Dessa forma as duas passam a ser utilizadas pelos historiadores modernos, deixando de lado as demais pólis da Grécia.

A partir da segunda metade do século XX, o cenário historiográfico muda com estudos mais recentes sobre a História da Grécia, principalmente com o surgimento dos estudos culturais. Culto, território e a origem da cidade-estado grega, de François de Polignac, publicado originalmente em 1984, muda o cenário atenocêntrico dentro da academia. Kenneth Dover em 1981, atribui o atenocentrismo à vastidão de fontes literárias escritas em Atenas, em detrimento de outras pólis gregas, até Esparta era descrita sob a ótica dos atenienses.

A visão Atenocêntrica pesou muito dentro da historiografia, conforme já falamos anteriormente, até hoje o Ensino Básico brasileiro sofre as consequências da visão única da Grécia. Ribeiro (2020), fez análises em dois momentos sobre como a Grécia é trabalhada nos livros didáticos do Ensino Médio: em 1995 e em 2019. Na primeira análise, foi constatado nos livros pesquisas engessadas, passagem rápida sobre os temas, falta da definição sobre o que foi as cidades-estados (pólis), e informações distorcidas. Atualmente, vinte e quatro anos depois, apesar dos avanços com relação à impressão e arte, distribuição e programas do livro, pouca coisa mudou no sentido de conteúdo sobre a Grécia, segundo a autora, ainda é perpetuado o privilégio por Atenas e Esparta, uma em contraponto à outra e pouca definição sobre o mundo helênico.

Por fim, percebemos que o atenocentrismo durou muito tempo na concepção das pessoas desde a Idade Antiga, perpassando através do tempo até chegar ao Ensino Básico da era contemporânea, mas, apesar do ideário antigo, da preferência dos historiadores da modernidade e da prevalência de fontes escritas em Atenas, está havendo mudanças e coube à arqueologia mostrar a importância de outras pólis existentes na Grécia Antiga. Elas tiveram muita importância e expressividade para a comunidade helênica, eram independentes umas das outras, seguiam os seus próprios ritmos, com seus calendários, regimes de governo, etc. e partilhavam de uma mesma cultura, a Helênica, por isso, merece a mesma representação que tiveram Atenas e Esparta durante tanto tempo.

Referências:

DAHORA, Juliana Figueira. Reflexões acerca do contato entre gregos e não-gregos no mediterrâneo: identidade, materialidade e espacialidade. Anais do XXI Encontro Estadual de História –ANPUH-SP – Campinas, 2012.

FRANCISCO, G.; MORALES, F. Desvelando o Atenocentrismo. Revista de Cultura e Extensão USP, v. 14, n. supl., p. 67-79, 21 mar. 2016.

FRANCISCO, G.; MORALES, F. Desvelando o Atenocentrismo. Revista de Cultura e Extensão USP, v. 14, n. supl., p. 67-79, 21 mar. 2016.

HALL, J. Quem eram os gregos. Rev. do Museu de Arqueologia e Etnologia. São Paulo, 11: 213-225, 2001.

RIBEIRO, Marcia Cristina Lacerda. A História Antiga Grega na Contemporaneidade: O Abismo entre a Pesquisa e o Livro Didático. SimpoCantagalo. Disponível em: <www.simpocantagalo2020.blogspot.com/p/a-historia-antigagrega-na.html>. Acesso em: 08 de fev. de 2021.

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