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Registrando FATOS na história

O local de culto do deus Zeus em Olímpia está localizado no oeste do Peloponeso, na Grécia Balcânica. A atividade religiosa se iniciou ainda na Idade do Ferro (XI-X a.C.). Somente a partir do final do século VIII a.C. o santuário de Olímpia deixou de ser local de culto rural e isolado – que servia a pequenos chefes do oeste do Peloponeso – para se tornar o local de um grande festival religioso que envolvia competições atléticas.

O culto à Zeus olímpio se espalhou pela Grécia entre os séculos VI e V a.C., especialmente para o ocidente. O que justifica tal ato foi que, nesse período, as elites helênicas participavam dos jogos em Olímpia e também foi nesse momento da história da Grécia que estava em consolidação o processo de identidade dos helenos, tendo o santuário um papel importante nesse processo.

No final da Idade do Ferro e início da Arcaica, o processo de colonização grega se intensificou, de acordo com C. Antonaccio, na literatura sobre o assunto prevalece que os gregos impunham uma cultura aos povos autóctones. Durante o período arcaico, no continente grego, J. Hall argumenta que os critérios culturalmente autorizados de identidade nesse momento eram a descendência e um território comum, e não a cultura.

Atualmente, considera-se o século VI a.C. o período crucial para a cristalização da identidade grega. A tradição genealógica presente no Catálogo de Mulheres, que data da primeira metade do século VI a.C., contém indicações importantes sobre a criação da autoconsciência grega no período.  O poema registra que o herói Heleno teve três filhos, Doro, Xuto e Éolo, e que Xuto teve como filhos, Aqueu e Íon. Esta árvore funciona para fazer a relação dos principais grupos populacionais da Grécia entre si e para criar uma identidade helênica mais abrangente. (Hall, 2001: 218).

No início do século V a.C. a ameaça externa dos persas fizeram com que houvesse uma solidificação na identidade grega de oposições. A identidade agregativa deu lugar a uma de oposições a grupos externos de bárbaros. Os gregos estavam sempre no processo de vir a ser e este processo não havia sido concluído antes do período clássico, quando no confronto com os persas os gregos começaram a ver-se mais em termos de costumes e de cultura do que em termos de parentesco.

A partir do século VII a.C., os grandes santuários interestaduais haviam se tornado arenas regulares para a comunicação e competição entre aristocratas de várias partes do mundo grego. Esse primeiro grande desenvolvimento arquitetônico nesses tipos de santuários corresponde a dois momentos: o uso do termo helenos e a formalização dos festivais pan-helênicos realizados nesses espaços. Como no início do século V a.C. a participação nos jogos em Olímpia estava restrita àqueles que podiam alegar descendência helênica, Hall então conclui que foi possivelmente na órbita
transregional dos jogos olímpicos que a identidade helênica surgiu, na medida em que as elites dórias, jônias e aqueias começaram a forjar relações de parentesco fictícias com os eólios da Tessália no século VI a.C.

A emergência do culto de Zeus Olímpio nas pólis gregas, por influência direta de Olímpia ou por influência de cidades, no último século da época arcaica e no primeiro século da época clássica, mostra que o deus passou a ser reverenciado e a ter significado, na esfera cívica, no momento em que os gregos procuravam laços comuns, se de parentesco no século VI a.C., se de cultura no século V a.C., somente em relação às guerras persas e ao santuário de Olímpia, um siracusano era considerado um grego (Malkin, 2001: 3), como nos informa Laky. Não foram, portanto, apenas os valores de uma elite que levaram a instalação do culto e a veneração do deus, mas a necessidade de proteção do que era grego, do apaziguar as diferenças entre eles e a autoafirmação de uma consciência étnica e cultural que se cristalizava.

Referência

LAKY, L. Olímpia, Zeus Olímpio e a Construção da Identidade Grega nos Séculos VI e V a.C. Mare Nostrum, v. 3, n. 3, p. 189-212, 12 dez. 2012.

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